Analfabetismo assola crianças paraenses


JORNAL “O LIBERAL”

ATUALIDADES Belém 19 de Julho de 2009

Analfabetismo assola crianças paraenses

BRASÍLIA

THIAGO VILARINS E RAFAEL QUERRER

Da Sucursal

De cada grupo de 10 crianças entre oito e nove anos no Pará, pelo menos duas delas são analfabetas. Mais de 78 mil meninos e meninas espalhados pelo Estado, são incapazes de ler e escrever um simples bilhete com meia dúzia de palavras. É o terceiro pior cenário brasileiro, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo IBGE. Somente Maranhão, com 104 mil crianças analfabetas, e Bahia, com 103 mil, superam a marca paraense. Além da alta incidência de analfabetismo nesta faixa etária, outro dado causa preocupação: o ritmo lento da redução desses números nos últimos anos.

A pesquisa avalia os números da educação no Estado entre 2001 e 2007, sendo que só a partir de 2004 o IBGE passou a considerar a população rural para o cálculo. Nesse período, o percentual de crianças analfabetas oscilou apenas de 29% para 24%. Se for mantida essa velocidade de queda (3% ao ano), o Pará dificilmente cumprirá a meta de ter até 2022 toda criança plenamente alfabetizada aos oito anos de idade, estipulada pelo movimento Todos Pela Educação.

‘É muito difícil fechar a torneira do analfabetismo nesse ritmo. Essa meta de garantir todas as crianças até oito anos lendo e escrevendo fica muito distante se não houver uma política de avaliação nacional para a alfabetização de crianças. Sem essas políticas, vamos continuar contemplando esses percentuais’, avalia o presidente executivo do movimento, Mozart Neves Ramos.

‘Para acabar com o analfabetismo no País, temos que olhar esses dados das regiões Norte e Nordeste do Brasil e criar políticas para, primeiro, saber se essas crianças estão chegando aos oito anos alfabetizadas. Se não estão, precisamos de uma política que faça que elas cheguem à 4ª série do ensino fundamental plenamente alfabetizadas. É fundamental para que se reduzam as desigualdades nessas regiões’, completa Ramos.

O Ministério da Educação (MEC) também acompanha com preocupação essa baixa evolução. Entretanto, pondera que, ao mesmo tempo que as últimas reduções tenham sido baixas, o salto que o Pará teve na comparação com a última década foi bastante significativo. ‘Se hoje são 78 mil, há 15 anos esse número de crianças beirava os 400 mil no Estado. Então, conseguimos reduzir muito o número de crianças analfabetas. Elas estão nas escolas e provavelmente passarão por processos de recuperação, de reforço, de correção de fluxo que não deixará que elas continuem analfabetas’, explica a secretária de educação básica do MEC, Maria Pilar Lacerda.

De acordo com a secretária, a pobreza e o esquecimento com a população do Estado ao longo das últimas décadas são os principais vetores para esses índices. Ao traçar o perfil dessas crianças, ela destaca que ‘elas são os filhos dos pais analfabetos’, ressaltando que o Pará contribui com mais de 4% de toda a população adulta sem escolaridade do Paí – fora a situação de indigência dessas crianças. A pesquisa também revela que a totalidade delas é de famílias que recebem menos cinco salários mínimos mensalmente. Outra particularidade nos traços que definem esses meninos e meninas é a dificuldade de chegar às escolas fora das áreas urbanas. Pelo estudo, é no Pará que incide a maior quantidade de crianças analfabetas que vivem no meio rural: mais de 31 mil.

‘Nós temos que comemorar o dado de que praticamente 100% das crianças de 6 a 14 anos estão hoje na escola, principalmente nessa região, onde os direitos à educação foram mais tardios. Posso dizer que o Brasil está melhorando, porque se essas crianças conseguem chegar na escola é porque a escola pública chegou a famílias e setores da população que ainda não tinha alcançado. Mas nós temos que nos preocupar com os projetos pedagógicos das escolas que devem reconhecer quem são esses alunos. A escola precisa mudar radicalmente para trabalhar com as crianças de verdade que existem no Pará e não com as crianças idealizadas das escolas dos anos 60’, ressalta Pilar.

Índices da região Norte (IBGE)

Em cada grupo de 10 crianças entre oito e nove anos no Pará, duas são analfabetas.

78 mil meninos e meninas espalhados pelo Estado não conseguem ler ou escrever um simples bilhete.

Somente Maranhão, com 104 mil crianças analfabetas, e Bahia, com 103 mil, superam a marca paraense.

O Pará dificilmente cumprirá a meta de ter até 2022 toda criança plenamente alfabetizada aos oito anos de idade, estipulada pelo movimento Todos Pela Educação.

As crianças têm dificuldade de chegar

às escolas fora das áreas urbanas do Pará. O Estado tem a maior quantidade de crianças analfabetas que vivem no meio rural: mais de 31 mil.

Provinha é questionada

Como ação para reverter o cenário desfavorável no País e no Pará, a executiva do MEC lista medidas como a ampliação do ensino fundamental de oito para nove anos, a melhoria na formação de professores alfabetizadores, a distribuição de livros adequados para crianças e o investimento em creches e pré-escolas. Mas de todas essas ações, ela destaca a criação da Provinha Brasil, que é aplicada nas escolas no segundo ano de escolaridade, como a principal proposta para que os educadores conheçam o perfil dessas crianças e os incentive no aprendizado.

‘A Provinha é aplicada em março e novembro do mesmo ano. São duas provinhas diferentes que não visam fazer divulgação ou ranking dos alunos. O resultado dela é um quite com seis volumes e o professor identifica em que estágio estão os seus alunos. A partir desses dados, ele recebe um livreto que o orienta sobre quais atitudes ele deve tomar se os seus alunos estiverem no nível 1, que é o nível mais baixo, no nível 2 e no nível 3. O ideal é que a maior parte da turma esteja nos níveis 3 e 4. E nós orientamos para que os professores modifiquem o seu trabalho e acompanhe os seus alunos para que eles melhorem’.

A proposta recebeu críticas de especialistas em educação. Na opinião de Mozart Ramos, ela é importante mas está longe de garantir um acompanhamento do aprendizado das crianças. ‘Ela pode auxiliar o professor, mas não assegura. Para ser suficiente é preciso que atrele o Provinha Brasil a um sistema de avaliação que não fique no professor. Se amanhã o professor deixar de lecionar naquela escola, não tem um controle. Vai ficar apenas no achismo do professor se o aluno dele é ou não alfabetizado. Ela serve para auxiliar, mas não para avaliar se a criança está de fato alfabetizada’, critica

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